Uma harpia de família

Na mitologia grega, as harpias eram filhas de Taumas e Electra. Apareciam ora como mulheres sedutoras ora como horríveis monstros, que procuravam sempre raptar o corpo dos mortos, para usufruir de seu amor, simbolizando as paixões obsessivas bem como o remorso seguido à sua satisfação.

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Ela era uma harpia de família. Seus antepassados tinham imigrado da Grécia para o Brasil em busca de um clima mais ameno e mais oportunidades. Na Grécia os monstros eram desacreditados, mas o povo do Brasil era extremamente crédulo e as chances de a família prosperar eram grandes.

Sua geração já era a terceira a nascer no Brasil. Ela não era muito ligada a tradições, nem as gregas, nem as brasileiras. Queria mesmo era ganhar o mundo, ser importante, ter poder e sucesso. Seu maior ideal era ser apresentadora de programa infantil ou, no mínimo, uma paquita.

A princípio, imaginou que estudando fosse conseguir o que queria. Fez faculdade, aprendeu línguas, saiu do país. Mas sua veia de monstro, o sangue ruim que corria em suas veias impediu que tomasse o caminho correto. Ela queria muito, e rápido. Cansou de se disfarçar de moça, queria um lugar onde pudesse se mostrar como a verdadeira criatura monstruosa que era. Dispensou o namorado e voltou para o Brasil.

Finalmente conseguiu impressionar um mortal, que foi seduzido por sua beleza (ela se achava muito bela), por sua inteligência, por suas ideias. Foi morar na cidade dele. A princípio, se apresentou para todos na sua versão moça-bonita-simpática. Era muito falante, se achava engraçada, pensava que todos se divertiam com ela.

Pobre harpia ignorante. Não percebia que, por suas costas, todos debochavam dela. Riam um pouco por desespero, porque viam no fundo de seus olhos o brilho malévolo, pressentiam o cheiro da maldade. Riam pois tinham um misto de medo e pena deste ser patético.

Aos poucos, a harpia foi se tornando mais e mais confiante e pôde ir revelando seu outro lado, seu verdadeiro "eu". Primeiro foram os olhos esbugalhados de loucura. Depois, as garras de fera, os dentes de víbora, as asas de demônio. A cada maldade que cometia, revelava mais um pedacinho. Já não conseguia mais se transmutar em boa moça.

Aqueles que a circulavam, os que antes se riam, agora tinham só medo. E ela adorava! O cheiro de suor gelado, a fragrância do medo, os olhares de soslaio alimentavam-na como se estivesse recebendo combustível nas veias. Abusava dos mais simples, esnobava os subalternos, pisava em quem estava abaixo dela.

E o poder... ah, o poder era sua droga. Inebriada, se pudesse injetaria nas veias só para ver se o barato era maior.

Não percebeu que era só mais um joguete nas mãos daquele humano a quem considerava tolo. Os papeis se inverteram: a tola, agora, era ela. Não viu que se enfastiando de poder só se mostrava como realmente era - um monstro. E nenhum humano gosta de monstros.

Aos poucos foi perdendo a sua confiança. A autoestima monstruosa que tinha se transformou em birra de mocinha... e foi perdendo a razão. Brigava com todos, perdia discussões que antes eram resolvidas com um simples olhar.

Um dia, no meio de um ataque de raiva, resolveu usar sua maior arma: um jato de veneno. 'Chega de ser boazinha', pensou, 'não aguento mais, vou matar essas pessoas'. Cuspiu seu veneno, mas como sempre errou na mão: exagerou na dose e se engasgou. Morreu provando da sua própria maldade.

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